Esperava iniciar a cirurgia às oito, e terminar no máximo às dez. 

Pois ficamos das oito às dezessete operando. Nove horas de cirurgia. Era inevitável? Não, não era.

Porque aconteceu que o paciente, um senhor de 77 anos, esperou dois anos antes de procurar auxílio médico para cuidar de uma tumoração, pequena, que estava crescendo no seu lábio superior.

Dois longos anos. Resulta que, ao chegar à consulta e ser examinado, o que se viu: a 'bolinha' na pele era pequena, mas à palpação, notava-se que quase todo o lábio superior, anormalmente endurecido, estava infiltrado pela doença. Informei, prevenindo, que talvez o paciente saísse da cirurgia com um curativo beeeeeeeeeem grande. 

 

 

Pois, retiramos a lesão com margem, ou seja, a incisão foi feita além do bordo visível da lesão. Encaminhamos o material à patologia, para exame de limites, durante a cirurgia. Quase duas horas depois, o resultado: carcinoma basocelular (um tipo de câncer de pele), e apenas o limite superior estava livre. Dois limites laterais e mais o limite profundo estavam comprometidos microscopicamente pela doença. 

Este procedimento é padrão. Para não sacrificar tecido sadio, é preciso esperar confirmação do laboratório, ainda mais quando se está operando lesão na face. 

Então, depois desta espera, e diante do resultado, ampliamos todas as margens de ressecção, enviando os tecidos para novo exame. Limite medial comprometido. Nova ressecção, nova congelação. Total, mais duas horas de espera, pelo resultado do exame. Desta vez, todos os limites livres de doença.

Ótimo, o paciente estava curado! O único detalhe foi que quase nada restou do seu lábio superior. Estávamos com um defeito enorme pela frente. Mais um certo tempo quebrando a cabeça, matutando qual a melhor opção para reconstrução. 

 

 

Aí o paciente ficava cansado, aí queria se virar, queria fazer xixi, aí faz xixi, seda o paciente, aí ele acorda, e isso também contribuiu pra alongar bem o tempo cirúrgico, e ficamos exaustos, nós e o paciente. A famosa 'tourada'.

E porque conto isso aqui? Porque uma cirurgia de câncer de pele era pra levar uma hora, não nove horas. Mas isso só acontece quando a pessoa detecta o crescimento de uma bolinha na pele que coça, ou que tem uma coloração diferente, ou que sangra e não cicatriza, ou que tem crosta, e vem logo ao médico. Não fica cultivando sua bolinha. O câncer de pele cresce devagar, mas cresce. Em duas semanas, cresce quase nada. Mas em dois anos, cresce bastante. 

As pessoas vão adiando, com medo de uma eventual necessária cirurgia. Medo de descobrir que aquilo é 'coisa ruim', medo de injeção, medo de médico, medo de hospital. E a bolinha crescendo. E o gatinho vira um tigre. Sim, porque o fato de você não olhar não faz a bolinha parar de crescer

Se a pessoa já nos chega com o lábio, por exemplo, todo comprometido por doença, não tem milagre. O único jeito de curar câncer de pele que ultrapassa a espessura da epiderme é a cirurgia. Não tem pomada, nem cauterização, nem 'raspadinha' que resolva. Se tivesse vindo antes, com a bolinha pequena, uma pequena cirurgia resolveria. Mas o medo de cirurgia faz com que a pessoa acabe tendo que passar por uma cirurgia muito maior, mais sofrida e com maior seqüela estética do que se viesse logo. 

Então, pessoas, em primeiro lugar, evitem a exposição ao Sol entre dez e dezesseis horas, usem filtro solar, e atentem pras manchinhas de pele. Se uma manchinha de pele começar a mudar de cor, a coçar, a sangrar, a formar crosta, arrumem um horário pra usar os serviços de um médico. 

Para lesão grande, cirurgia grande. Lesão pequena, cirurgia pequena, e muito mais simples. Pensem nisso, e evitem a necessidade de 'touradas' como esta que contei aqui. Vocês sabem, touradas hoje em dia estão completamente fora de moda!