Mais um dos 'causos' ocorridos comigo, e mais um entre tantos que acontecem por aí pelos hospitais da vida.

Em certa época, eu trabalhava na Cirurgia Plástica do HTO (Hospital de Traumato Ortopedia); o horário de trabalho que costumava terminar por volta de 17 horas não estava acabando antes das 20, por conta dum tal mutirão da saúde.

Num desses dias saí do centro cirúrgico e fui ver um paciente com escaras, na enfermaria. Juntei o material, e lá fui eu. 

Ao chegar no quarto, esqueci do meu cansaço àquela hora da noite. Paciente alcoólatra, com soro na veia, sonda de alimentação, joelho ruim, e a mãe do lado, uma senhora de certa idade mas pronta a ajudar. Com certeza eu não estava em posição de reclamar de nada. 

Separei tudo direitinho, coloquei luvas, vamos lá. O rapaz tinha quatro escaras precisando ser desbridadas. Tudo foi bem nas tres primeiras. Na quarta, zupt! cortei meu dedo com o bisturi, que já tinha sido usado na escara não exatamente asséptica, de um paciente não exatamente fora do que se costuma vulgarmente chamar de 'grupo de risco'.

O dedo da luva ganhou uma bela cor vermelha, por dentro. A mãe do moço ficou com dó, eu disse que não foi nada, protegi o buraco com uma gaze e terminei o que tinha que fazer. Acabei, fechei o curativo, fui pro posto de enfermagem, mostrei o dedo a uma enfermeira, senhora magrinha de óculos fundo de garrafa.

Ela ficou muito assustada, e acabou me assustando. 

- 'Vem aqui, minha filha! Aperta bem o dedo, deixa sair o sangue!'

Obediente, eu apertava, ela espremia um soro em cima, e ia correndo o riachinho vermelho.

Enquanto jogava o soro, ela me dizia: 

- 'Tem nada não, filha. Deus vai proteger. Porque nosso trabalho aqui, é uma missão, você sabe?'

- 'Sei, sim', respondi, começando a me preocupar de verdade.

- 'Joga álcool!'

Jogamos álcool, depois Iodo, depois um curativo bem fechadinho, que ela fez pra mim.

Passei uns dias com o dedo latejando, morrendo de medo. Porque eu não me apavorei de cara, e entre cortar e lavar passou um tempo. Só fui me assustar depois que vi a reação da enfermeira.

Depois, olhando pro dedo já bom, agradeçi à prestativa enfermeira, claro, e a todos os santos pra quem rezei. Obrigada!